Os Bulhões e a corista
Vamos ganhar à Dinamarca. Como jovem profeta apoio esta minha afirmação em dois factores de monta. O primeiro é que hoje é dia do Fernando Martins de Bulhões, homem nado e criado na freguesia de São Vicente de Fora em Alfama, era conhecido no bairro pela sua audácia e bondade mas particularmente como grande assador na brasa de tudo o que era peixe que o mar oferecia ao bairro. Era tão bom, tão bom que o canonizaram e chega à fama celestial com o nome de Santo António. A fama de Bulhões alastrou por toda a europa que acabou em Pádua onde lhe pagavam mais e tinha à sua disposição um grelhador finalmente em condições e à altura do seu talento. Segundo fator: somos um povo de mar e de gigantes como a Lula do Aquário Vasco da Gama, as enormes baleias e atuns dos Açores, já para não falar de um tipo com ar de mendigo que surgia sempre a bombordo das naus e caravelas, um tal de adamastor, mas enfim deixem-me que vos diga, no mar há pouca coisa que nos assuste. Em Copenhaga os donos de uma cervejaria, uma espécie de Portugália lá do sítio, a Carlsberg, contratam em 1913 um tal de Erichsen para esculpir uma Sereia pequenita como oferta à sua bela cidade. A coisa complicou-se logo à partida pois o escultor, o supra-citado Erichsen, queria por força que o modelo para a sua delícia do mar fosse a bela bailarina Ellen Price. A mulher do Erichsen numa tarde em que nevava à grande em Copenhaga entra no atelier do marido cheia de sacos e de frio, vê o que na altura lhe parecia uma alucinação: A bailarina toda nua a fazer uns sons esquisitos com a boca numa dança tipo mariposa, enquanto Erichsen afiava o escopro e lhe pedia para fazer de polvo. O resto já se sabe foi um momento muito fino com a corista a ser insultada e mandada escadas a baixo pela mulher do escultor. O artista sem desculpa razoável para mais aquela pequena traição artística, lá se redimiu e acedeu que fosse a sua própria mulher a servir de modelo para a sua mais famosa criação. Um povo com Bulhões que se fez ao mar sem saber sequer nadar, que arpeou baleias e cachalotes que aparou as barbas ao Adamastor não se vai deixar tolher agora por uma Sereia triste de anca larga sentada num seixo. Se não ganharmos a culpa é da criatura e arranca-se-lhe a cabeça.