11 de Junho de 2012
LUÍS FILIPE BORGES no DN
O mundo segue dentro de momentos
Assumo desde já: escrevi esta crónica antes da partida contra os germânicos. "Contra", pois é, em vez de com. Deixei-me influenciar pela linguagem bélica habitual em alguma imprensa quando certames como um Europeu de futebol acontecem: confronto, grupo da morte, vingança, defesa blindada, ataque bombardeiro, enfim, um tipo de linguagem claramente adequado ao desporto que se pretende "para toda a família".
O motivo da minha opção como escriba é simples: se porventura fomos presenteados com 4 salsichas teutónicas contra nenhuma batata portuguesa, o moral pelas ruas do país deve andar hoje ao nível da nossa crista cada vez que testemunha uma conferência de Vítor Gaspar. Se, ao invés, formos capazes de um brilharete, então os quartos de final estão à vista. E toda a gente sabe quanto os jogadores adoooram passar aos quartos. Nesse caso, não deverá haver ruela portuguesa que não grite já a plenos pulmões e em cada esquina que "até comemos" qualquer opositor que se nos atravesse.
Calma. Chega de viver neste eletrocardiograma frenético, altos e baixos qual montanha russa do demo, ziguezagues emocionais tão abruptos que envergonhariam uma Meryl Streep, oitos e oitentas da mais pura esquizofrenia, estados de ânimo suscetíveis de nos atalhar gravemente a esperança média de vida. Se perdemos, o mundo não acaba agora; se ganhámos, bravo, mas os problemas do País continuam. Seja como for, os políticos agradecem a distração. O pão e o circo dos romanos atravessaram os tempos e chegaram aqui. Sendo Portugal bipolar, a equação está perfeita: fica um polo com o pão, o outro com o circo, e nenhum se preocupa com o futuro. Quando aprenderemos, de uma vez por todas, que a virtude está algures no meio?
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