21 de Outubro de 2011

Semedo

Abrir a porta de casa, por um pé na rua, olhar em volta e ceder ao cerco. Ao cerco do nada. «Só me apetece recuar e voltar para a cama.» Semedo assume o sacrifício que é estar no Azerbaijão. Vive na capital Baku e joga no Khazar, a 260 kms de distância. Estranho? «Sim, muito estranho. Mas tem de ser. Só mesmo em Baku é possível ter uma vida relativamente normal», reage, instado pelo Maisfutebol (apostas desporto online).

Já se percebeu. Esta aventura é moldada em contornos improváveis e relatada em baladas de reflexão. Tempo para isso não falta. Esmague a cara contra o vidro, vislumbre o horizonte deserto e encoste o ombro ao estofo coçado. «O meu clube é da cidade de Lankaran. Lá não se passa nada, nada. Só lá estou para estagiar [o centro de treinos é óptimo] e jogar. Se tivéssemos de viver lá, ninguém assinava pelo clube. O resto do tempo é vivido na capital e em viagens.»

Viagens pela terra do nunca. Autoestrada? Sonhem. Alcatrão? Sim, esmigalhado. Semedo explica. «Nós dizemos que estamos na estrada do pirata. A via que liga Baku a Lankaran parece um mar, de tão turbulenta que é. O autocarro abana, nós enjoamos e só a boa disposição ajuda a passar o tempo. É assim.»

A frieza no olhar das pessoas, o desconforto de ser estrangeiro, a solidão. Nada melhor do que um golo para acabar com essa maldição. É um analgésico brutal, uma tisana potente e infalível.

«Foi maravilhoso. Tive a sorte de marcar logo na estreia. A partir daí começaram a tratar-me muito bem, perceberam quem eu sou. Antes... bem, posso dizer que estive três semanas só a negociar o contrato, sem jogar. Os azeris são bastante desconfiados.»

A experiência, difícil, obriga a improvisar. Na arte da mímica, por exemplo.

«Nisso estou um especialista. Eu e o Éder Bonfim (ex-Benfica, Sp. Braga, Est. Amadora, Leiria e V. Setúbal), o meu melhor amigo aqui. Certo dia queríamos um cubo de gelo no sumo de laranja e a empregada não entendia. Ninguém fala inglês, só turco e russo. Começámos a apontar para o copo e a fazermos o gesto de quem tem frio. Aí sim, a menina percebeu! É o pão nosso de cada dia.»

Chamam-lhe «pantera», lutam pelo primeiro lugar e gozam com a arrogância de Cristiano Ronaldo. É este o retrato possível dos colegas de equipa de Semedo. «São boas pessoas. Preferem o Messi ao Cristiano. Eu digo o contrário, claro. Estamos na frente da classificação, queremos chegar ao título e temos boas possibilidades. A liga não é competitiva, mas há equipas fortes. O Tony Adams [ex-internacional inglês] treina uma delas.»

O estádio do Khazar leva 15 mil pessoas por jogo, «está quase sempre cheio» e tem um «ambiente muito bom». «As pessoas não têm mais nada para fazer, por isso têm de ir ao futebol. Isso é óptimo, mas falta o bacalhau, o cozido à portuguesa, a comida africana. No clube é sempre frango.»

Em Baku (apostas liga dos campeões) «a vida é cara» e a oferta limitada. Se Semedo quiser arejar as ideias à noite, não pode. Ou pode, se pagar 400 euros. «Só há festas privadas e reservadas. Caríssimas, nem pensar. Preferimos ir jantar, ouvir música ao vivo e ficar a jogar bilhar. Baku está a evoluir bastante, embora ainda falte muita coisa.»