VOTAÇÃO ABERTA: OS MELHORES DA LIGA ZON SAGRES

14 de Outubro de 2011

Éder



Eleito recentemente pelo Maisfutebol como uma das 10 figuras (até agora) da Liga, Éder é o exemplo acabado do anti-herói. Aos 23 anos cumpre finalmente o desígnio que um dia Domingos Paciência, um perito na posição, lhe alvitrou para, pouco depois, encantar um André Villas Boas em ano probatório antes do sucesso de estrondo no Dragão.

Calmo e ponderado, o primeiro goleador português da lista de melhores marcadores continua fiel a uma humildade desconcertante. A mesma, certamente, com que entrou, muito pequeno ainda, no Lar Girassol, uma instituição dos arredores de Coimbra, destina a acolher crianças em risco.

Foi lá, depois de chegar da Guiné com três anos e de um périplo por Lisboa e Braga, que desenvolveu a paixão pelo futebol e o desejo de, um dia, chegar a profissional. «Quando me perguntavam o que queria ser, nem sabia bem o que responder, mas queria algo relacionado com desporto», confessa, em conversa com o Maisfutebol, relembrando tempos saudosos.

«Sempre que chegávamos da escola, íamos jogar para o pátio. O problema é que estávamos cercados de janelas. Não havia balizas, apenas pedras ou árvores para fazer de conta. Claro que, depois, partíamos muitos vidros, mesmo quando não era golo. Perdi-lhes a conta. Tenho muito boas recordações de lá, tantos amigos...», recorda.

Éder era, por assim dizer, já na altura, um exemplo para muitos dos miúdos. «Alguns estavam até em pior situação do que eu. Foram amizades muito importantes para o meu percurso de vida e dou muito valor a isso. Chegou uma altura em que eu era dos mais velhos e isso dava-me responsabilidade. Procurei transmitir aos mais novos o que me fora ensinado, tentando apaziguar ou mediar alguns conflitos.»

O futebol, mais uma vez, foi veículo privilegiado para desempenhar esse papel. «Como todos jogávamos, era a nossa forma de interagir e de nos entendermos. Era já dos mais dotados em campo e tinham-me, por isso, grande respeito, ouviam-me. Às vezes vou lá de visita e digo-lhes como tenho saudades, que gostava de voltar àqueles tempos. Sinto-me tão bem quando lá vou...»

A capacidade de liderança foi-lhe recentemente reconhecida também na Académica. «Aconteceu desde que o Berger saiu da equipa. A aposta aumenta-me um pouco a responsabilidade e tenho de apoiar mais os colegas, dar às vezes uma palavrinha ao árbitro, e é preciso estar mais em cima dos acontecimentos. Tem corrido bem. Da primeira vez, até marquei dois golos [risos].»

A Éder nada foi dado de graça. O luso-guiniense (só obteve a dupla nacionalidade há dois anos, depois de ter vivido quase a vida toda em Portugal) teve de conquistar o seu espaço à custa de muito suor e persistência. Chegou finalmente a internacional, pelos sub-23 (apostas futebol), depois de ter frustrado as expectativas de alguns seleccionadores das camadas anteriores pela demora no processo de naturalização que o impediu de vestir a camisola das quinas mais cedo.

Agora, já com quatro golos em sete jornadas, no melhor arranque de sempre, o patamar a atingir será mais elevado: os AA. «Se continuar com este nível, a marcar, ou até se conseguir melhorar, é possível», admite. Longe, muito longe, estão as horas infindáveis de treino e jogos em campos pelados, pelo Adémia, clube dos distritais das cercanias de Coimbra, pelo qual foi formado antes de passar por Oliveira do Hospital e Touriz.

Diferenças entre aquele Éder, sempre promissor, mas cândido na hora de atirar à baliza? O próprio não as encontra, afinal a qualidade esteve sempre lá, mas aponta um caminho: «Fiz uma boa pré-época e a equipa também tem sido mais ofensiva. Chegamos com mais gente à área e isso facilita.»