Por: Luís Freitas Lobo
O futebol tem caminhos que só ele próprio conhece. Muitos, são quase um desafio à lógica. FC Porto e Sp. Braga cruzaram-se na relva de Dublin, rodeados de sonhos e Guiness por todos os lados, mas nunca libertaram o seu plano de um jogo de um estado de espírito inicial que amordaçou o seu melhor futebol durante 90 minutos. A corda mental: um jogo de respeito táctico. E, nessa linha de pensamento receoso, o tal desafio à lógica: um mau passe foi capaz de, por si só, ser mais importante para abrir espaços do que todos os passes acertados (em geral quase sempre curtos) no jogo todo. O erro (ou melhor, o detectar do erro) para activar outro chip de dinâmica e velocidade no jogo. Porque é muito diferente a velocidade em espaços curtos da velocidade em espaços longos. Durante todo o jogo, sobretudo no seu plano inicial, o Braga encurtou o campo e obrigou o jogo a disputar-se em apenas 30 metros de relva, enchendo o meio-campo de médios pica-pedra que se não conseguiam jogar bem, conseguiam, pelo menos (e era esse o plano inicial) impedir de jogar bem. Custódio surgiu como médio mais adiantado para pressionar mais alto, Viana a tentar comer espaços, Vandinho atrás a fechar. Mas o jogo não se esgota só na recuperação de bola, necessita de um momento subsequente na sua posse em que a equipa mude a sua linha de pensamento. Em suma: um bom jogo exige que as equipas percam, nem que seja por alguns momentos, o respeito táctico uma pela outra. Em Dublin isso nunca aconteceu.
A não ser, claro, no mau passe de Rodriguez e na clareira que subitamente se abriu para Guarín irromper pelo meio-campo do Braga, então apanhado em desequilíbrio defensivo posicional. Foi quando o radar de goleador se acendeu na área. Falcao sentiu que, por fim, ia acontecer alguma coisa. Procurou o espaço nas costas do defesa-central restante do Braga, o desesperado Paulão, hesitante entre sair, ir marcar em cima, ou tentar antecipar, até que a bola surgiu na medida certa para um cabeceamento que mistura arte guerreira, voo, ballet e contorcionismo.
No início do segundo tempo, quando o Braga tentou mudar a sua linha de pensamento no jogo (no fundo, perder um pouco derespeito) outro erro, ia reabrindo o jogo (Fernando teima em cometer o erro de receber a bola de costas à frente da sua área e foi surpreendido por Mossoró que a roubou e isolou-se. À medida que ia correndo na direcção da baliza de Helton, parece, no entanto, que Mossoró ia ficando mais curvado, lento e hesitante. No fundo, ele sentiria, naquele momento, carregar todo o peso do mundo nas costas (entenda-se o peso do sonho bracarense, história e possibilidade de a mudar). Com toda essa pedra emocional agarrada às chuteiras, rematou fraco e Helton disse à bola para ir embora. E, de facto, ela nunca mais lhe apareceu por perto.
Foi um jogo em que quase se podia ouvir o bater do coração dos jogadores, treinadores e adeptos, tal o silêncio emocional que o rodeou.
O golo solitário de Falcao, a beleza plástica do movimento, a sua eficácia mortífera, imparável, foi maior que o jogo todo. Nessa altura sentimos como o futebol pode ser arte e garra, simultaneamente. E, se um dia, todos os pontas-de-lança fossem como Falcao? Que futebol teríamos e que emoções abrigaria qualquer jogo, mesmo aquele com mais cavalheiros tácticos, com um jogador que voa por cima de toda a realidade?
O FC Porto conquista a Liga Europa sentindo-se uma equipa maior do que a própria prova. É irónico, mas a possibilidade de a ganhar só pode nascer porque se começa por falhar um objectivo (entrar na Champions, o seu lugar). Tal como a equipa na sua dimensão colectiva, Falcao, o nº9 que levanta voo do jogo mais soporífero, ambos estão destinados a outras aventuras. Entrar naterra dos monstros da Champions. Sem respeito.