
Publicado em: DN
Fascinado com André Villas-Boas, Rui Moreira quer o jovem técnico muitos anos no Dragão, isto apesar de ter considerado Jorge Jesus como o treinador ideal a contratar há dois anos. Não vê o Benfica a interromper o ciclo do FC Porto que, no seu entender, não pode vender Hulk em Janeiro. Quanto à saída do programa 'Trio de Ataque', garante que não voltou a falar com António-Pedro Vasconcelos. E sustenta que Vítor Baía merecia um FC Porto-Barcelona para assinalar o adeus aos relvados
Defendeu a escolha de um treinador estrangeiro para suceder a Jesualdo Ferreira. Já está convencido com André Villas-Boas?
Só defendi a contratação de um treinador estrangeiro quando se falou na necessidade de apostar em jogadores da formação e o nome de Paulo Bento veio à baila. A aposta nos jogadores jovens não tem efeitos a curto prazo e os sócios são sempre mais pacientes com treinadores estrangeiros. A partir do momento em que se soube o nome do novo treinador, fui dos primeiros a apoiar a contratação.
Que futuro prevê para um treinador tão jovem?
Tem tudo para ser treinador do FC Porto por muitos e bons anos.
A goleada ao Benfica vingou a época passada?
A época anterior começou muito mal do ponto de vista desportivo, mas não há que perder mais tempo com isso. Este jogo vingou-a e foi importante porque representa o início de um novo ciclo do FC Porto e o fim do anunciado ciclo vitorioso do Benfica.
Esperava uma resposta do FC Porto ao Benfica tão rápida?
Esperava. Durante a época passada a equipa foi subaproveitada. Jesualdo não foi capaz de tirar o máximo de cada jogador - e excluindo a troca de Moutinho por Meireles a equipa deste ano é a mesma. A diferença está na rentabilização dos jogadores - basta olhar para Belluschi e até para Hulk, que é hoje um jogador muito mais de equipa. Nota-se outra ambição - na época passada, o FC Porto foi à Luz sem ambição jogar contra um Benfica desfalcado.
Que pede agora? A Liga Europa?
Há concorrentes sérios - Liverpool, Juventus. Mas penso que a partir de agora será possível gerir o plantel de maneira inversa - até aqui a aposta era na Liga. Agora poderemos concentrar-nos mais na Liga Europa. Este ano faz lembrar o que Mourinho venceu a UEFA - aquela equipa foi a melhor da era Mourinho e abriu as portas à conquista da Champions.
Continua a achar que Helton não é guarda-redes para o FC Porto?
Não é infalível e nem sempre são fáceis de entender as suas actuações. Fora dos postes falta-lhe algo. Tem aí muito a melhorar, mas reconheço que joga bem com os pés.
O FC Porto pode vender Hulk em Janeiro?
Não. Hulk deverá fazer mais jogos na Liga Europa. Quer o FC Porto quer o jogador têm vantagem desportiva e financeira nisso.
Rodríguez é 'dispensável'?
Não duvido do seu profissionalismo, mas nunca o tive na conta de grande jogador. Poderia sair, mas duvido que tenha mercado.
A contratação de João Moutinho foi a melhor notícia do defeso?
Foi e o clube fez um excelente negócio - recebeu mais pela transferência de Raul Meireles do que pagou por Moutinho e ganhou um jogador mais completo.
Foi dos primeiros a defender o fim do ciclo Jesualdo. O ano passado foi um ano perdido?
Foi um ano perdido, sim.
Há dois anos quem teria escolhido para treinador?
Jorge Jesus, por exemplo. É um treinador competente embora lhe falte ambição. Talvez porque nunca passou pelo estrangeiro.
Saiu um veterano, entrou um técnico de 32 anos. Que outras mudanças espera deste ciclo?
Este ciclo está a levar mais pessoas ao estádio. Há agora uma harmonia entre o que os sócios exigem e o que a equipa lhes dá. A equipa de Jesualdo jogava 70 minutos e quando estava a ganhar entrava em poupança; a de Villas-Boas joga 90 minutos e sempre com ambição. Depois, nota-se uma aposta nos jogadores mais jovens e com consequências: pela primeira vez há uma redução da massa salarial bruta. Não quer dizer que esses valores não subam com os prémios de jogo, mas aumentos salariais devido a prémios de jogo não é mau sinal. Concluindo, houve três grandes ciclos - o do Sporting, o do Benfica e o do FC Porto -, este ciclo longo do FC Porto ainda não acabou. Vai-se renovando.
Não era legítimo pensar que com aquela equipa o Benfica poderia regressar a um ciclo positivo?
Houve uma altura em que admiti que pudesse acontecer, mas depois do jogo do Benfica em Liverpool e depois de alguns jogos penosos do final da época, percebi que não. E mais convencido fiquei quando vi as vendas e as contratações de pré-época. O Benfica viu-se na necessidade de fazer mais-valias cedo demais.
Estranhou ver Jesus ao lado de Pinto da Costa na final da Taça?
O que estranhei foi a ausência de Luís Filipe Vieira na assinatura do novo contrato entre o Benfica e Jorge Jesus. Percebeu-se que alguma coisa não estaria bem. Por outro lado, algumas opiniões de alguns jornalistas mais afectos ao clube deixam entender que Jesus não é indiscutível. Esta época, as desculpas não param - começaram por culpar Roberto; depois passaram para a dramatização das arbitragens e, agora, transformaram Jorge Jesus no grande culpado. As alterações tácticas para o Dragão não foram as melhores, mas a verdade é que quando corrigiu o erro nada mudou.
Mas as arbitragens têm prejudicado o Benfica ou não?
O Benfica diz-se prejudicado em Guimarães, mas esquece que foi beneficiado no último jogo na Luz.
O Benfica foi ao Porto sob forte protecção policial. O FC Porto deve exigir o mesmo em Lisboa?
Na Luz espero protecção policial à equipa e dirigentes, mas dispenso o aparato que se verificou - gostava de saber quem paga estas brincadeiras - e por uma razão: não quero que os jogadores do FC Porto se sintam escravos prontos a serem atirados às feras. Julgo que foi isso que sentiram os jogadores do Benfica. Eu quero que os meus jogadores entrem em campo como gladiadores.
Foi eleito sócio do ano e Dragão de ouro. Que motivos encontra para essa distinção?
O que posso dizer é o que foi dito por Pinto da Costa; o prémio deveu--se à forma séria e independente como defendo o FC Porto.
Continua a não ter uma posição definitiva sobre uma candidatura à presidência do clube?
Sim, nunca disse que era candidato, mas também nunca disse desta água não beberei. Enquanto Pinto da Costa tiver saúde deve continuar e terá sempre o meu apoio.
Pinto da Costa disse de si recentemente: "Seria um excelente presidente da Câmara do Porto." É uma possibilidade?
Faltam três anos e o País tem mais em que pensar.
Ser presidente da ACP é um ponto de partida para que ambições?
A ambição é poder dedicar-me a uma multiplicidade de actividades. Desde que vendi a minha empresa, posso fazê-lo. A ambição de manter a liberdade de dizer o que quero dizer a qualquer momento. Ser presidente da associação ajuda a marcar posição, claro, é um instrumento de lóbi na região. Lóbi no bom sentido. Mas não é um instrumento para uso pessoal.
Foi noticiado que aceitou o convite da TVI para fazer comentário em várias áreas. ..
Tenho convites mas nada está decidido e não tenho pressa. Uma coisa é certa: falar de futebol é hipótese posta de parte.
Se ainda estivesse no programa quem escolheria para o topo e fundo da semana?
Para o topo, Pinto da Costa. Para o fundo, Luís Filipe Vieira. Afinal o prometido ciclo vencedor do Benfica parece estar um bocadinho prejudicado.
Que dividendos e custos resultaram da participação no programa?
No início deu-me prazer. Tratava-se de uma tertúlia entre pessoas independentes, sem ligação oficial aos clubes e penso que foi isso que deu tanta visibilidade ao programa de canal invisível. Há um momento em que o António-Pedro Vasconcelos (APV) chegou mesmo a dizer que Vieira não era benfiquista - fui eu que defendi o presidente do Benfica. Nessa fase, APV promoveu a candidatura do Moniz, ligou-se depois ao candidato Bruno Carvalho e, como consequência, sofreu uma enorme pressão. Resultado, converteu-se. Perdeu a liberdade e isso alterou as regras do jogo: eu estava lá para defender as minhas ideias; ele para defender a versão oficial. A partir daí o debate teria de resvalar.
Nunca mais viu o programa, tal como prometeu?
Dois pequenos apontamentos e mais nada.
Ficou desapontado e zangado?
Nem uma coisa nem outra. Saí de consciência tranquila, por ter defendido os princípios em que acredito, a propósito de uma pessoa que muito admiro. Aquele já não era o Trio d'Ataque para que fui convidado. Era um programa em que havia um representante do Benfica e em que eu só me representava a mim.
Não combinavam os temas?
Nunca falávamos antes do programa e por isso fui apanhado de surpresa. Nunca ninguém me ouviu dizer que um treinador tem cara bovina, nunca ofendi ninguém. Carlos Daniel é um dos grandes responsáveis porque, mesmo já não sendo o moderador, quis sempre continuar a mandar no programa. A direcção também agiu de forma miserável. Tratou mal o actual moderador que bem chamou a atenção para a ilegalidade de se revelar o conteúdo das escutas.
Nunca mais falou com APV?
Não.
Nem vai falar?
Não sei. Tenho falado com o Rui Oliveira e Costa. Recentemente jantou em minha casa e até fui eu que o levei ao estúdio.
No entanto, comentou as escutas ao primeiro-ministro...
Foi-me perguntado se a divulgação repercutia na imagem do primeiro-ministro a nível internacional. Acabado de chegar da Alemanha disse que sim e citei dois jornais alemães que tinham abordado. Não divulguei escutas nem comentei o teor das mesmas.
Esta crítica foi-lhe feita por Ricardo Araújo Pereira que, por solidariedade com José Diogo Quintela, deixou o jornal A Bola, depois de um diferendo com Miguel Sousa Tavares. Sendo colunista de A Bola, quer comentar?
Esse assunto não me diz respeito.
Nunca falou com dirigentes portistas sobre o programa, nunca preparou com eles a abordagem a um tema mais complicado?
Nunca.
E com Pinto da Costa?
Nunca e com mérito do FC Porto, que nunca me contactou.
De todos os programas em que tema se sentiu mais constrangido?
Toda a discussão sobre a actuação do Rui Costa na questão dos túneis. Foi sempre difícil estabelecer um limite. Tentei evitar sempre cair na tentação de dizer mais do que devia.
Fez, por várias vezes, críticas ao clube nomeadamente à entourage do presidente. Que ecos teve?
Os alvos das críticas não ficaram contentes. Mas nunca tive problemas. Nem me mataram o cão. Nunca tive problemas nem com os SuperDragões.
Cometeu injustiças?
Com o Helton, talvez. E com um ou outro treinador.
Com Jesualdo?
O primeiro a dizer que Jesualdo devia ir para o FC Porto, fui eu.
Continua a considerar Futre como o melhor jogador que viu jogar com a camisola do FC Porto?
Futre e Cubillas.