Artigo Publicado em: Maisfutebol
Por: Ricardo, antigo internacional português
Será este o «Mundial dos pequenos»? As surpresas estão a tornar-se, cada vez mais, uma regra e isso dá confiança às equipas que não são consideradas favoritas. Podemos ver a questão sob duas perspectivas. Normalmente diz-se que os favoritos surpreendem pela negativa. E se pensarmos que as selecções teoricamente mais fracas estão a surpreender pela positiva?
As grandes equipas estão a sentir grandes dificuldades dentro de campo. Oxalá isso se aplique às outras selecções, mas não à nossa! As equipas asiáticas são cada vez mais disciplinadas e evoluídas. Tecnicamente o Japão e a Coreia do Sul têm mais qualidade, mas atenção aos norte-coreanos. O árbitro apita para o final e eles continuam a correr! Têm disponibilidade e capacidades físicas incríveis.
Portugal tem de justificar o favoritismo com trabalho, dedicação e pôr tudo em campo. A selecção terá de ser mais ofensiva do que frente à Costa do Marfim. Terá de assumir o risco e não ter medo de perder a bola, porque há-de estar alguém por perto para ajudar a recuperá-la. O adversário tem de sentir-se encurralado, para garantirmos os três pontos.
Os nossos jogadores estão cientes das dificuldades que vão encontrar. Já não vão sentir o mesmo que sentiram na primeira partida. O receio de falhar não se vai sentir. Em termos ofensivos, há que arriscar mais, para começarmos a fazer mossa desde início.
Não podemos estar à espera de conseguir perceber a estratégia da Coreia do Norte através das instruções dadas em campo, porque não percebemos nada do que dizem! Por aí não saberemos a sua táctica, por isso é melhor apostar na nossa. Não os percebemos, mas não podemos dizer o mesmo deles. Um dos norte-coreanos fala português, o que podia ser uma vantagem, se as vuvuzelas deixassem.
Motivação, uma das armas da Coreia do Norte
Perguntaram a alguns jogadores nomes de norte-coreanos. As respostas não me surpreenderam. Tal como disse o Eduardo, eles têm nomes difíceis de pronunciar. Nada tem a ver com o trabalho que, de certeza, está a ser bem feito. Também não se trata de menosprezar o adversário. Existem dificuldades de pronúncia - identificam-se os jogadores pela cara e pelos números. Os portugueses estão a estudar os pontos fortes do adversário e depois vão passar isso do papel à prática.
Circularam notícias de que quatro jogadores da Coreia do Norte teriam abandonado o estágio. Independentemente dos problemas que possa ter, ou não, é certo que o adversário vai dificultar ao máximo a vida à nossa selecção.
Eles têm noção de que defrontar uma das melhores equipas do mundo, e ter pela frente um dos melhores jogadores, vai fazer com que tenham maior visibilidade. Para além disso, poderem ficar ligados a uma hipotética eliminação de Portugal também poderá dar-lhes motivação. Esses são pontos a favor da Coreia do Norte.
A lição da Espanha
A derrota da Espanha frente à Suíça foi uma clara demonstração de que ser favorito não basta. Depois do empate de Portugal meteram-se comigo aqui em Sevilha. No dia a seguir ao jogo da selecção espanhola perguntei, na brincadeira, se não tinham nada para me dizer. «Ainda falta muito», responderam - claro que após o nosso jogo a conversa era outra!
Compreendo o seu entusiasmo. São campeões da Europa e praticam um futebol fantástico, mas estes dias serviram para tivessem noção de que estão num Mundial e não num torneio de «solteiros contra casados». O jogo serviu de lição e também para acalmar a euforia. Nem sempre se pode ganhar.
Mas também me parece que, se a Espanha fizesse dez jogos frente à Suíça, ganharia os outros nove. Normalmente, perante o que jogou, venceria por dois ou três golos de vantagem.
A Holanda foi a primeira selecção a garantir os «oitavos». Penso que, ainda que com dificuldades, alguns dos favoritos irão conseguir justificar o seu estatuto.